A obra de Luciano Lelis, feita em homenagem ao poeta jequieense Waly Salomão e financiada com recursos federais, foi usada como tampão de mesa e depois jogada no lixo. Não é apenas uma peça descartada: é o símbolo de como tratamos nossa arte e nossa história. Modernizar sem preservar é maquiar o abandono.
Foto Redes Sociais
A Prefeitura Municipal de Jequié anunciou a instalação de uma fonte luminosa interativa na Praça dos Poetas. O projeto, conduzido pela Secretaria de Serviços Públicos, promete modernizar o espaço e atrair visitantes. Mas, por trás das luzes e da tecnologia, há uma história que expõe o descaso com a cultura local.
A praça abriga uma obra do artista jequieense Luciano Lelis, criada em homenagem ao poeta Waly Salomão. Essa peça foi contemplada em um projeto financiado com recursos federais, o que significa que dinheiro público foi investido para valorizar a arte e a memória cultural da cidade. No entanto, em vez de ser preservada e exposta com dignidade, a obra foi usada como “tampão de mesa” e depois jogada no lixo, junto a vassouras e restos de construção.

Foto: ASCOM PMJ
O contraste doloroso
Enquanto se investe em uma fonte luminosa para embelezar a praça, a obra de Lelis — que carrega a memória de Waly Salomão e representa a produção artística local — foi tratada como entulho. Esse episódio não é apenas uma falha administrativa: é um símbolo da n egligência com a cultura jequieense.
A Praça dos Poetas deveria ser um espaço de celebração da arte e da memória, mas hoje nos obriga a refletir: que valor damos à nossa cultura? Modernidade sem respeito à história é apenas espetáculo vazio.
Luciano Lelis emite Nota Oficial.
NOTA DO ARTISTA PLÁSTICO LUCIANO LELIS
Eu, Luciano Lélis, artista plástico de Jequié, com produção reconhecida pelo público e diversas obras espalhadas por várias cidades do Estado da Bahia, manifesto a minha indignação com um fato ocorrido hoje, segunda-feira, 16 de outubro de 2026.
Recentemente, tive o meu projeto contemplado numa lei de apoio à cultura, organizada pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Jequié, com recursos do governo federal, e para cumprir com a minha obrigação, criei e instalei uma escultura no alto da prefeitura, em homenagem ao poeta Waly Salomão.
Com uma mistura de tristeza e muita revolta, vi a minha criação artística, minha escultura, bastante danificada e com uma vassoura jogada por cima. No local, a prefeitura está realizando uma obra, acho que será uma fonte luminosa. Lamento o fato de não ter recebido nenhuma comunicação prévia da Secretaria de Cultura de Jequié sobre a obra de engenharia no mesmo local da escultura, o que me deixa duplamente revoltado. O desrespeito da prefeitura de Jequié e a dor atravessam o peito desse artista que buscará as medidas administrativas e jurídicas no sentido de obter justa reparação.
Waly Salomão: o poeta tropicalista
Nascido em Jequié em 1943, Waly Salomão foi um dos grandes nomes da poesia brasileira. Participou do movimento tropicalista nos anos 1960, ao lado de Caetano Veloso e Gilberto Gil, e se tornou referência da contracultura. Seu livro Algaravias venceu o Prêmio Jabuti em 1997, e sua obra mistura experimentalismo, crítica social e lirismo. Waly levou o nome de Jequié para o cenário nacional e internacional, tornando-se um ícone da literatura contemporânea.
Luciano Lelis: arte pop e identidade local
Luciano Lelis, também jequieense, construiu sua trajetória explorando a pop art e esculturas originais. Desde jovem, destacou-se em artes visuais e realizou exposições como Jequié é Pop, retratando o universo musical e cultural da cidade. Sua obra em homenagem a Waly Salomão deveria ser um marco de identidade cultural, mas acabou vítima do abandono.

