Foto: Ilustrativa IA
Por Herberson Sonkha.
Em tempos de comunicação instantânea, a política também se constrói por meio de vídeos curtos, recortes de falas e declarações que ganham circulação e novos sentidos nas redes sociais. É nesse ambiente que o prefeito de Jequié, Zé Cocá, tem ocupado espaço com discursos contundentes — ora críticos, ora elogiosos — dirigidos aos governos do Partido dos Trabalhadores na Bahia, especialmente aos de Rui Costa e Jerônimo Rodrigues.
O problema, contudo, não está na crítica — elemento essencial à vida democrática —, mas na forma e, sobretudo, na conveniência com que ela se apresenta. O mesmo agente político que, até ontem, fazia elogios efusivos e declarações públicas de lealdade, hoje ensaia um reposicionamento que beira o oportunismo mais elementar. Não se trata de revisão crítica de percurso, mas de uma inflexão marcada por conveniência política e ausência de coerência programática.
O tom adotado por Cocá revela mais do que estilo: expõe um padrão. E esse padrão não dialoga com a tradição da militância progressista, que, mesmo diante de divergências internas, preserva o compromisso com a construção coletiva e com a lealdade política. Há uma diferença substantiva entre criticar para aprimorar e romper para se reposicionar. No caso em questão, a ruptura parece menos fruto de reflexão e mais resultado de cálculo.
Para compreender a gravidade desse movimento, é necessário recuar no tempo. A trajetória recente da Bahia não pode ser dissociada do longo período de hegemonia política associado a Antônio Carlos Magalhães. O chamado carlismo estruturou-se sobre bases conhecidas: clientelismo, patrimonialismo e mando local — práticas que organizaram o poder em torno de poucos, sustentadas por relações de dependência e controle social.
Essa engrenagem foi descrita com rigor por Victor Nunes Leal, ao analisar o coronelismo como sistema político baseado na troca de favores e na formação de currais eleitorais. Durante décadas, esse modelo não apenas moldou a política baiana, como também naturalizou a confusão entre o público e o privado.
A ruptura com esse ciclo ocorre em 2006, com a eleição de Jaques Wagner. A partir dali, a Bahia inicia um processo de reconstrução institucional orientado por princípios republicanos, com foco na ampliação do acesso às políticas públicas e na redução de desigualdades históricas. Sob Rui Costa, esse projeto ganha densidade administrativa; com Jerônimo Rodrigues, aprofunda-se na dimensão social e territorial.
Jequié é, inegavelmente, beneficiária direta desse ciclo. Investimentos estruturantes, modernização de equipamentos públicos e ampliação de serviços colocaram o município em um novo patamar de desenvolvimento. Não se trata de retórica, mas de evidência concreta.
É justamente por isso que a postura de Zé Cocá causa mais do que estranhamento — causa perplexidade. Ao ensaiar um afastamento do campo que lhe deu sustentação política e institucional, o prefeito não apenas rompe com um projeto coletivo, mas o faz de maneira ruidosa, pouco elegante e, sobretudo, desleal. Há um evidente contraste entre o discurso de gratidão do passado recente e a crítica inflamada do presente.
Mais grave ainda é o horizonte para o qual esse movimento aponta. Ao se afastar do campo progressista, Cocá não caminha para um espaço neutro ou inovador, mas flerta com a reedição de práticas políticas que a Bahia, a duras penas, vem tentando superar. Trata-se de um retorno — ainda que disfarçado — à última expressão de um modelo carlista que sobrevive menos como força hegemônica e mais como resíduo histórico, insistindo em se rearticular.
Nesse sentido, sua postura não revela apenas incoerência, mas uma escolha política clara: a de abandonar um projeto de transformação social para se alinhar, ainda que parcialmente, a estruturas que historicamente operaram pela concentração de poder e pela manutenção de privilégios.
Não se trata mais, portanto, de uma simples oscilação discursiva. O que está em jogo é a reafirmação de uma cultura política que privilegia o indivíduo em detrimento do coletivo, o cálculo em detrimento do compromisso e a conveniência em detrimento da coerência.
A pergunta que permanece não é apenas sobre quem é Zé Cocá, mas sobre o que ele decidiu representar. E, ao que tudo indica, sua trajetória recente aponta menos para o futuro e mais para um passado que a Bahia vem, com esforço histórico, tentando deixar para trás.
Herbenson Sonkha.
Ativista Marxista do Movimentos Negro no Brasil!

