Encontros semanais, literatura e 12 passos para a recuperação. Essa é uma parte que descreve como funciona a estrutura dos Jogadores Anônimos de Salvador (JA). Os momentos acontecem durante reuniões das células da Irmandade na capital baiana, denominada de “Sala Salvador”. As reuniões acontecem sempre às terças, por volta das 19h.
Compõem o programa aqueles (as) que enfrentam algum transtorno compulsivo relacionado a jogos e apostas (sejam eles digitais ou não); membros que ocupam funções e “cargos” na irmandade, que estão em abstinência do jogo; além de um familiar ou amigo das pessoas em compulsão, que se reúnem em uma sala ao lado dos jogadores.
Os integrantes do grupo em abstinência são aqueles que conduzem e ficam à frente da irmandade, tanto nas reuniões, quanto na acolhida a novos membros, além de realizarem atendimentos, leitura de conteúdos, entre outras atividades que serão apresentadas ao decorrer desta matéria. É importante destacar que as reuniões não são abertas ao público geral, sendo destinadas somente àqueles que enfrentam a problemática.
O objetivo do grupo é mostrar que a dependência em praticar apostas pode ser acompanhada e tratada com apoio, já que não existem remédios ou procedimentos médicos comprovados cientificamente como solução.
A reportagem do Bahia Notícias acompanhou momentos antecedentes de uma reunião dos JA em Salvador. Foi acompanhado somente o momento anterior ao encontro, já que a iniciativa é restrita somente aos participantes.
Este conteúdo faz parte da série de reportagens “Endemia Social: O impacto do vício em apostas na vida dos Jogadores Anônimos de Salvador”, que tem o intuito de alertar sobre a compulsividade em relação a jogos de azar, cassinos onlines, entre outros do tipo; mostrar como é possível encontrar auxílio; e entender como o ato influência no cotidiano dos adeptos.
Essa segunda produção vai mostrar detalhes acerca da estrutura dos Jogadores Anônimos (JA) da capital baiana. Antes do encontro, a reportagem avistou algumas pessoas que iam chegando, se cumprimentando e se dividindo por volta das 18h20.
Homens de diferentes idades, mulheres e pessoas de diferentes etnias foram alguns daqueles que foram se aglomerando para compartilhar vivências, sentimentos, troca de saberes, experiências e esperanças para se recuperarem do vício na prática de apostar.
Eram cerca de 10 pessoas, além de outros que ainda estavam A chegar antes do começo da reunião. No grupo, há um servidor que atua como secretário, tesoureiro, entre outros cargos, conforme explicou ao BN um dos membros, indentificado como Márcio [nome fictício]. Ele afirmou ainda que os JAs de todo o mundo contam com reuniões virtuais, das quais todos os membros podem participar.
“A irmandade não tem cargos eleitos. Trabalhamos como nós chamamos de ‘consciência coletiva’. A cada dois anos a gente faz a renovação de funções. Então quem é tesoureiro passa o cargo para outro, quem é representante de grupo passar para outro. Hoje já tem o atendimento para reuniões virtuais. Existem dois tipos de reunião presencial e várias virtuais no Brasil inteiro, todos os dias em vários horários, onde qualquer membro pode participar”, disse.
O projeto acontece de forma gratuita, e os mais antigos (em termos de estar em abstinência) prestam apoio a outros integrantes do grupo. Segundo Márcio, ele e o outro representante ficam à frente para ajudar os recém-chegados por gratidão após conseguirem se recuperar.
“É um programa de autoajuda, em que a gente ensina e procura orientar as pessoas o que deve fazer na sua vida. Não se paga nada, não tem uma taxa de ingresso, não tem nada. Nenhum de nós ganha de nada, eu faço pela gratidão pelo que eu já recebi. Então se eu pude me recuperar, eu reconheço que é meu dever por gratidão estar aberto a outras pessoas pelo resto da minha vida. Como eu disse, não tem cura. A gente aprende uma regra de novo. É só por hoje, só vale o dia de hoje. Amanhã eu posso voltar a jogar, ele pode voltar a jogar. Quem me garante? Ninguém. Agora quando você está dentro de uma filosofia, de uma seita determinada, você vai incorporando e vida que segue”, pontuou.
O QUE SÃO 12 PASSOS?
São 12 métodos, denominados de “doze passos”, que norteiam e servem de base e referência para os jogadores anônimos. A lista foi fundada em 1935 por Bill W. e Dr Bob S., os fundadores do programa Alcoólicos Anônimos. A ferramenta foi determinada inicialmente para ajudar pessoas a vencerem o alcoolismo e depois foi expandida para quase todos os tipos de compulsões e dependências químicas e compulsões.
CONFIRA OS 12 PONTOS QUE SÃO UTILIZADOS NO BRASIL
1 . Admitimos que éramos impotentes perante o jogo – que nossas vidas haviam se tornado ingovernáveis.
2. Passamos a acreditar que um poder superior a nós mesmos poderia trazer-nos de volta a um modo normal de pensar e de viver.
3. Tomamos a decisão de entregar nossa vontade e nossas vidas aos cuidados deste poder de nosso entendimento.
4. Fizemos um minucioso e um destemido inventário moral e financeiro de nós mesmos.
5. Admitimos a nós mesmos e a outro ser humano a natureza exata de nossas falhas.
6. Ficamos inteiramente dispostos a ter estes defeitos de caráter removidos.
7. Humildemente pedimos a Deus (de nosso entendimento) que removesse as nossas imperfeições.
8. Fizemos uma lista de todas as pessoas a quem prejudicamos e nos tornamos dispostos a fazer a reparação a todos pelo mal causado.
9. Reparamos os danos causados diretamente a essas pessoas sempre que possível, exceto quando a reparação implicasse em prejudicá-las ou a outras.
10. Continuamos a fazer um inventário pessoal e quando estávamos errados, prontamente admitimos.
11. Procuramos, através da oração e meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus como O entendíamos, pedindo somente pelo conhecimento de Sua vontade perante a nós e a capacidade de realizá-la.
12. Tendo feito um esforço para praticar estes princípios em todas as nossas questões, procuramos levar esta mensagem a outros jogadores compulsivos.
FORMATO DAS REUNIÕES
Um primeiro ato que acontece é quando os novos membros chegam e são acolhidos. Na ocasião, é lido o primeiro passo de recuperação e que deve ser feito pelo jogador. O conceito inicial trata da internalização. Depois, as outras reuniões do programa são divididas na leitura dos 12 passos, que são reforçadas em todos os encontros.
“Na verdade, quando tem ingressante, nós lemos exatamente o primeiro passo de recuperação, para ele internalizar que ele é uma pessoa impotente perante o jogo. E aí é um programa de 12 passos, em que todos da irmandades de adictos têm esses 12 passos de recuperação, e a cada reunião nós lemos esse passo de recuperação, a interpretação desse passo para você conseguir compreender… Muitas vezes, as pessoas chegam aqui atordoadas e abrem o espaço para todo mundo debater e discutir sobre esse passo. Esse é o primeiro ponto da reunião”, detalhou Márcio.
Já a segunda parte do encontro é quando acontecem os momentos de depoimentos e testemunhos e as experiências de cada um com os jogos.
“O segundo momento da reunião são as partilhas, onde cada um vai contar sua história de jogo. Três minutos para cada um, pois temos muitos membros. Então aquele que tem a real necessidade de falar, a gente estende um pouco mais. Muitas vezes acontece alguns momentos em que algum irmão que já está na irmandade tem recaída”, afirmou.
É este ato de “queda”, de recair, que faz com que o processo de reabilitação desses jogadores seja remodelado no grupo. Após passar este “passo para trás”, o jogador tem um tempo maior na reunião para desabafar e falar de seu tropeço.
“Quando ele [jogador] recai, precisa de uma atenção melhor, então ele tem um espaço maior para falar um pouco mais. O que é que ele está sentindo, como é que está o emocional dele, um acolhimento. No primeiro momento, literatura, discussão e interpretação da literatura e no segundo momento as partilhas, onde você vai ouvir histórias reais de cada um”, revelou.
O sigilo e o anonimato também são um dos aspectos pregados pelo o grupo.
“Sempre respeitando o anonimato. A gente tem uma máxima: ‘O que você vê e ouve aqui, deixe aqui”.
ORIENTAÇÃO A JOGADORES ENDIVIDADOS
São casos comuns os de jogadores compulsivos estarem com algum problema relacionado ao endividamento. Quando a dívida não é com bancos, financeiras ou empresas de créditos, o jogador arrisca a própria vida e fica endividado com agiotas, entre outros cobradores.
“Quando alguém precisa, pede para participar de um grupo de alívio de pressão. Este grupo é para a pessoa que está toda endividada, agiota cobrando e ele está desesperado sem saber o que fazer”.
É preciso informar que o grupo de alívio não é voltado para emprestar dinheiro ou inventar ideias mirabolantes, mas sim orientar sobre como o jogador endividado pode negociar o que deve, seja com entidades financeiras ou a outras pessoas.
“A gente orienta. A orientação consiste em recomendar para este viciado dialogar com o seu cobrador e tentar uma negociação e dizer: ‘Eu não posso pagar vamos dizer que R$ 100 toda semana, eu só posso pagar R$ 20, mas vou pagar tudo’. É para negociar, para que ele entenda que tem saída. O cara de lá do outro lado faz a pressão, ele quer receber dinheiro, claro. Mas se ele matar a pessoa, não vai receber nada, vai ficar sem o dinheiro. Isso é um dos aspectos, fazemos essa orientação em para negociar com o banco, financeira, fazer um orçamento…”, constatou.
Caso a pessoa precise deste tipo de atendimento, uma outra reunião momentos antes do encontro da cúpula é realizada, ou os integrantes marcam uma outra data.
“O irmão é que tem que pedir. A gente se reúne no dia de nosso encontro ou algum outro dia determinado para o suporte. É algo mais educativo. Mas é uma demanda de cada irmão para o grupo, não é uma coisa de todas as reuniões. Pode acontecer ou não fora da reunião”, contou.
Outro ponto tratado no projeto é acerca da religiosidade. Segundo o integrante Wilson, a fé, independente do credo de cada jogador, também é levada em consideração no processo de tratamento desses JAs, além da parte mental.
“Se eu sei que eu tenho uma doença, se eu aceito que tem uma doença, é o primeiro passo. O aceitar minha condição de doença de caráter emocional, que eu não sei como eu vou tratar isso. Você pode tratar com psiquiatra, com todas as doenças emocionais junto com a sua, qualquer fé que você tenha – a gente chama de poder superior”.
Um dos principais passos reverberados e destacados pelos representantes é a virtude da humildade. De acordo com eles, é necessário que o jogador que enfrenta o transtorno reconheça e seja humilde para superar o vício, além de frequência e adesão.
“A frequência ao programa onde a gente passa informações de onde você vai discutir, elaborar pensamentos. No 4º passo da recuperação falamos sobre o desvio de caráter. Tem uma lista desse desvio, a exemplo da falta de humildade, explicar a pessoa ser mais humilde…”, completou.
Alerta: Pessoas com problemas de vício ou dependência em jogos podem procurar os Jogadores Anônimos (JA) de Salvador e participar da reunião, que acontece às 19h. Para mais contatos com o grupo, basta acionar o (71) 8624-0512.
Esses jogadores podem também recorrer a atendimento terapêutico com psicólogos e psiquiatras.