Foto: Ilustrativa
Diante da iminente entrada de cacau proveniente da Costa do Marfim, atualmente em navios ancorados no porto de Ilhéus, é indispensável emitir um alerta severo. O Brasil — e especialmente a região cacaueira da Bahia — já sofreu consequências devastadoras no passado ao permitir a entrada de materiais sem o devido rigor sanitário. O exemplo mais marcante e doloroso é a vassoura‑de‑bruxa, doença fúngica que destruiu lavouras inteiras, arrasou economias locais e comprometeu por décadas o sustento de milhares de famílias. Esse episódio não pode, sob hipótese alguma, se repetir.
A possibilidade de introdução de novas pragas, fungos, bactérias ou vírus oriundos de áreas produtoras da África ou de outros países é real e extremamente perigosa. A importação de cacau sem protocolos rígidos de inspeção e quarentena representa um risco que não pode ser subestimado. As consequências seriam potencialmente catastróficas para a economia, o meio ambiente e a segurança alimentar da região.
Por isso, é imprescindível que o Governo do Estado da Bahia e o Governo Federal não se omitam diante dessa situação crítica. Medidas de controle, fiscalização e avaliação sanitária deveriam não apenas ser adotadas imediatamente, mas já ter sido estabelecidas antes mesmo da chegada desses navios.
É importante destacar que as empresas responsáveis por esta importação são as mesmas das quais os produtores locais dependem para comercializar sua produção. Na prática, os cacauicultores se veem reféns de um mercado dominado por poucas empresas — duas ou três, no máximo — que operam armazéns em inúmeros municípios e definem diariamente preços que têm variado de forma dramática: de quase R$ 1.000 para menos de R$ 300 por arroba em curto espaço de tempo.
Assim, medidas mínimas e urgentes precisam ser adotadas, tais como:
• Diálogo imediato com as empresas importadoras, exigindo transparência sobre a real necessidade da importação;
• Esclarecimento sobre o volume de cacau que pretendem importar e sua justificativa;
• Verificação objetiva se a produção regional não seria suficiente para suprir suas demandas;
• Avaliação rigorosa da sanidade fitossanitária do cacau importado;
• Exigência de informações sobre os critérios humanitários adotados na produção desse cacau no exterior;
• Auditoria sobre possíveis incentivos ou isenções fiscais que essas empresas recebem para operar na região;
• Definição clara sobre a responsabilidade por eventuais pragas ou doenças introduzidas por meio dessas importações.
Paralelamente, é essencial consultar claramente os produtores locais para avaliar a capacidade produtiva atual da região cacaueira e sua real possibilidade de suprir as demandas industriais.
Diante da instabilidade dos preços pagos ao produtor e da dependência econômica gerada, torna-se urgente discutir inclusive a possibilidade de um acordo de preço mínimo para a arroba de cacau, como medida de proteção ao pequeno e médio agricultor.
Esse conjunto de ações deve envolver o Governo da Bahia, o Governo Federal, representados por secretarias de Agricultura e Meio Ambiente, Desenvolvimento Rural, ADAB e o Ministério da Agricultura (ANVISA)— enfim, todos os possíveis órgãos responsáveis pela regulação agrícola, sanitária e ambiental no país.
O objetivo final precisa ser claro: proteger o produtor rural, salvaguardar a economia regional e impedir que um novo desastre sanitário coloque em risco toda a cadeia produtiva do cacau. Proteger o agricultor, preservar a Mata Atlântica, garantir a sanidade das nossas lavouras e impedir que a história da vassoura‑de‑bruxa se repita é responsabilidade toda a sociedade.
É fundamental lembrar que, além da relevância econômica, o cacau exerce há décadas um papel ambiental crucial na preservação da Mata Atlântica, especialmente através do sistema cabruca — um modelo agroflorestal único, que mantém a floresta em pé enquanto permite a produção agrícola. Apesar de ser um patrimônio ambiental e cultural, esse sistema foi historicamente negligenciado em políticas públicas e praticamente “jogado ao lixo”.
E há um agravante crítico:
Preço baixo do cacau incentiva a abertura de novas áreas, já que muitos produtores, pressionados economicamente, passam a derrubar vegetação nativa para compensar perdas — colocando em risco tanto a floresta remanescente quanto a sustentabilidade da própria cadeia produtiva colocando em risco tanto a floresta remanescente quanto a sustentabilidade da própria cadeia produtiva.
Também é importante reforçar que situações críticas como esta não podem ser instrumentalizadas por interesses políticos oportunistas — algo que infelizmente ocorre em todas as esferas: municipal, estadual e federal. O momento exige responsabilidade, técnica e ação imediata.
Este é o alerta que deixo registrado.
João Barros
Técnico Agropecuária

